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Como água e óleo

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Embora haja correntes que defendam um “socialismo cristão”, essa é uma idéia ambígua. Socialismo e comunismo têm a mesma relação com cristianismo que água e óleo... Você pode até tentar, mas as duas coisas nunca vão se misturar.

“Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo;” - Colossenses 2:8

As preocupações com o futuro do Brasil têm feito borbulhar em mim uma série de conceitos que, como mentor de um rebanho, não posso me esquivar de abordar, embora mexam com convicções, trajetórias e paixões na vida de muitos. Sei que posso desagradar... Como, porém, pesa sobre mim a responsabilidade de ensinar a verdade, doa em quem doer, não me resta alternativa a não ser correr o risco.

Outro dia alguém me perguntou o que achava de um crente do nosso rebanho exercer uma militância política de esquerda. Respondi: Acho triste, mas a culpa é nossa, como pastores. Se não ensinamos nossos discípulos sobre política e temas afins, alguém os ensinará ou, pior, as circunstâncias e oportunismos os sequestrarão.

Embora haja correntes que defendam um “socialismo cristão”, a meu ver essa é uma idéia ambígua. Socialismo e comunismo têm a mesma relação com cristianismo que água e óleo... Você pode até tentar, mas as duas coisas nunca vão se misturar.

Antes de mais nada, deixe-me dizer que Deus não é capitalista nem socialista. Esses são conceitos terrenos e corrompidos demais para serem atribuídos ao Altíssimo, até porque se referem à matéria e Deus é Espírito. Isso não quer dizer, entretanto, que não possamos julgar esses sistemas à luz da História e principalmente da Palavra.

Por que afirmo que o socialismo em essência é incompatível com os valores cristãos e bíblicos? Darei apenas meus principais argumentos, entendendo que eles são suficientes ao menos para lhe fazer pensar melhor sobre o assunto, considerando esta ótica.

Em primeiro lugar, um cristão deveria rejeitar as ideologias de esquerda por causa da sua origem. Karl Marx, o pai dessa fábula, foi um ateu radical. Suas palavras revelam sua mente: “a fé em Deus é, pois, ao mesmo tempo, uma divisão da consciência e uma ilusão. Urge, portanto, desmascarar esta ilusão a fim de restituir ao homem a dignidade perdida da sua interioridade infinita”. Para ele, a religião era “o ópio do povo”, um vício que deveria ser combatido a todo custo... É dessa mente que nasce o comunismo (e o socialismo, conceitos que se completam).

Não se trata apenas de uma revolta pessoal contra Deus, sem consequências sobre sua doutrina. Como a própria História demonstra, a foice e o martelo de Marx militam contra a Cruz de Cristo. Aliás, a História é o meu segundo grande argumento para rejeitar completamente a ideologia marxista. Nos últimos dois séculos, comparado ao nazismo de Hitler contra os judeus, nenhum poder torturou, oprimiu e martirizou tantos cristãos quanto os regimes comunistas, inclusive os que perduram até hoje (como o da Coréia do Norte, da China e de Cuba). Quem lê relatos como os que estão nos livros “Torturado por Amor a Cristo” e “ O Homem do Céu”, com a consciência de que os personagens ali massacrados são nossos irmãos, não pode admitir carregar a mesma bandeira, ainda que ela esteja hoje travestida de tolerância e respeito à liberdade.

Pergunte a um judeu se ele aceitaria filiar-se a um “Partido Nazista Renovado”, assegurando-lhe que o caráter racista foi abolido e que só se preservou “o que era bom”. Ele cuspirá em sua cara, pois não é possível filtrar uma história devastadora como foi a do Holocausto, introduzindo conceitos mais "singelos e modernos" na mesma raiz podre que quase dizimou seu povo... Da mesma maneira, entendo que quem conhece o rastro sangrento do comunismo em relação à Igreja de Cristo, sendo crente, não pode se afeiçoar aos seus paradigmas e levantar a sua bandeira.

Esta ótica da História deveria ser suficiente para nós, mas há outra. Onde esse sistema funcionou, trazendo liberdade e prosperidade real ao povo? Ainda esta semana eu ri ao ver a propaganda eleitoral de um desses “partidecos” de extrema esquerda, dizendo que há um país onde todos são felizes e não há mazelas. Segundo eles, esse “paraíso” é Cuba. Poucos dias depois os jornais estavam noticiando que Fidel Castro admite que o modelo cubano não funciona mais (como se algum dia tivesse funcionado) e anunciando a demissão de meio milhão de cubanos do funcionalismo público, pois o estado não aguenta mais sustentá-los. Por essas e outras nunca se ouve falar de um pobre americano oprimido tentando chegar de bote, sob risco de morte, a esse “paraíso socialista cubano”. No sentido oposto, porém, a via sempre foi dramaticamente congestionada...

Vamos deixar as evidências da História e pensar um pouco em conceitos bíblicos. Comecemos por um dos pilares da doutrina socialista: a questão da propriedade. A tese do socialismo, a grosso modo, é que a propriedade não pode ser privada, mas coletiva (diga-se, estatizada). Nossas crianças estão aprendendo na escola, através da revolução silenciosa que o PT está fazendo, que o criminoso não é o que invade e destrói, mas o que possui. Que o vergonhoso não é cobiçar e tomar, mas ter... Portanto, invasores do meu Brasil, mãos à obra! Mas o que a Bíblia fala sobre direito de propriedade, inclusive da terra?

Não há um só versículo na Palavra de Deus que condene a propriedade privada e a prosperidade pessoal. Ao contrário, desde o Éden Deus incentiva o homem a conquistar e trata cada um como cada um. Obviamente não estou falando da ganância inconsequente ou do capitalismo selvagem, que se instala na alma das pessoas, mais do que num sistema econômico. Estou falando de ter o direito de ter (desculpe a redundância), sem consciência pesada, sabendo inclusive que isso pode ser um sinal da bênção de Deus “que enriquece e não acrescenta dores” (Pv 10:22). Alguns dos mais notórios modelos da fé seriam classificados pelos comunistas de plantão como burgueses a serem espoliados em nome da justiça social. Assim, Abraão, Isaque, Jacó, Davi, Salomão e uma grande lista de heróis bíblicos seriam duramente julgados, simplesmente porque, em decorrência da bênção de Deus, possuíam muitos bens.

Alguém pode argumentar que exemplos assim não servem, por estarem inseridos em contextos culturais e históricos que não se aplicam à nossa realidade. Afinal, Israel tomou a terra dos cananeus sob a ordem de Deus e nem por isso o MST tem nessa verdade base hermenêutica para fazer o mesmo em nossos dias... Então vamos para aquilo que é supra-cultural, que está consolidado como o cerne da Lei do Senhor: os Dez Mandamentos. Nenhum cristão pode negá-los como a expressão da vontade perfeita de Deus, em qualquer tempo ou lugar, certo? Pois bem, um dos dez mandamentos é: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” (Ex 20:17)... E agora, José? Nesse texto sagrado, o Senhor não apenas garante o direito de propriedade, como condena aquele que ao menos cobiçar o que é alheio. Concluo eu que nem indivíduo e nem governo algum tem o poder de anular esse princípio áureo da Palavra de Deus... E sem a quebra do direito à propriedade privada, o marxismo simplesmente se dissolve.

Outra grande bandeira da doutrina marxista é a luta de classes. Esta é a palha, ou melhor, o grande combustível da revolução. Patrões e empregados são inimigos irreconciliáveis e a única saída para uma sociedade justa seria o aniquilamento da “burguesia” com a expropriação de seus bens. Isso, em tese, porque nas práticas socialistas radicais e reais o que seu viu foi o Estado se tornando o mais perverso dos patrões e o surgimento de uma oligarquia mais cínica do que a capitalista (onde só um grupo de ex-proletários, responsável então por gerenciar o poder, se lambuzou, com direito à ditaduras e corrupção blindada, sem ferramentas de fiscalização por parte do povo). Aliás, esse modelo está em franca expansão nos bastidores do Brasil hoje, em que pese sermos uma democracia e não estarmos oficialmente num regime socialista.

Mas o que a Bíblia diz sobre a luta de classes, oxigênio dos movimentos de esquerda? A Bíblia não diz nada simplesmente porque a Bíblia não reconhece a luta de classes. Antes, o que vemos na Palavra é o apelo à conciliação. Nunca à revolta. É por isso que Paulo escreve: ”Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos; Que façam bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente, e sejam comunicáveis” (I Timóteo 6:17-18), e ainda: “Vós, senhores, fazei o que for de justiça e eqüidade a vossos servos, sabendo que também tendes um Senhor nos céus.” (Cl 4:1). Já aos que estavam a serviço dos detentores do capital, sua instrução é do tipo: “Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus. E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens” (Cl 3:22-23). Portanto, a proposta do cristianismo não é aniquilar classes, mas aproximá-las, feito que não se dá pela imposição de um sistema econômico, mas pela transformação da consciência gerada pela lei do amor, ideal e possível plenamente apenas aos que nascem de novo.

Quem quer, como Hugo Chávez, apresentar Jesus como “o maior revolucionário socialista” que a História já viu, demonstra sua total ignorância sobre quem foi o Nazareno e o que Ele propôs. Nunca o vemos repreendendo um rico pelo fato de possuir riquezas. Nunca o encontramos interferindo nas relações de trabalho e de comércio, a não ser sua dura manifestação contra a profanação que os cambistas faziam no espaço sagrado do templo. Mas ali o assunto era espiritualidade e não economia.

Os que quiserem colocar os crentes de Jerusalém, ao venderem suas propriedades e repartirem entre os que necessitavam, como uma prova do caráter comunista da igreja original, também estarão assassinando a Hermenêutica. O que houve ali em Atos 2 foi um livre e voluntário movimento de amor, localizado e restrito a um curto período, sem nenhum tipo de imposição dos líderes. Ou seja, ninguém foi expropriado. Voluntariamente as pessoas ofertavam, como deve ser até hoje. Ananias e Safira, por exemplo, foram duramente julgados, não por resistirem à divisão das suas riquezas, mas por terem agido com falsidade. As palavras de Pedro sobre a venda do seu campo foram: “Porventura se não o vendesses, não seria ele teu; e vendido, não estava o preço no teu poder? Como formaste este desígnio no teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus” (At 5:4).

Antes de finalizar estas reflexões, preciso fazer algumas ressalvas. Em primeiro lugar, sei que existem irmãos sinceros e sérios fazendo algum tipo de militância ou ao menos simpatizantes dos movimentos de esquerda. A maioria deles, como eu, rejeita os extremismos, mas acredita numa nova versão de socialismo que inclua elementos democráticos e tolerância, quase que uma recriação do que Marx propôs. Eu os respeito, mas considero uma ingenuidade apostar na conversão desse sistema. Quero, porém, deixar claro que o fato de haver um cristão ligado à correntes socialistas, por si só não põe em dúvida seu caráter, sua intenção e sua fé. Para mim, ele pode ser um sincero e sério homem de Deus, mas está fazendo opção equivocada e incoerente. Além disso, por mais que haja homens cristãos e equilibrados nos partidos de ideologia marxista, na raiz e na cúpula dos mesmos sempre haverá gente e princípios bastante radicais, impossíveis de serem calados. Eu não aconselharia esta convivência a um discípulo meu...

Reconheço também que as terminologias não são absolutas. Quando me refiro a socialismo, sei que existem várias vertentes, desde a extrema esquerda cega e odienta, até os que defendem uma social-democracia, posição mais equilibrada. Portanto, meu discurso é tanto mais incisivo, quanto mais radical for a tendência ao esquerdismo. Da mesma forma, quanto mais for extrema a mentalidade de direita, capitalista, mais distante estará do espírito cristão.

Ninguém entenda, portanto, que minha posição é de defesa da ganância e das enormes distâncias sociais atribuídas ao capitalismo. Eu não seria um verdadeiro cristão, se o fizesse. A questão é que estas pragas são resultado da alma humana, pervertida pelo pecado, e não de um modelo econômico. Não é o capitalismo em si que origina as enormes desigualdades, mas o caráter egocêntrico do ser humano sem Deus. Tanto que as experiências comunistas radicais registradas na História geraram ao longo do tempo uma oligarquia estatal, uma minoria de gerentes e aproveitadores do poder e das riquezas em detrimento de uma maioria de proletários iludidos com a igualdade. Aliás, eu nunca vi um comunista querendo dividir o que é seu com quem tem menos que ele. A motivação é sempre tomar de quem tem mais. Que nome se dá a isto? Ganância e egoísmo, o mesmo que se instala na alma dos capitalistas. Problema do coração perdido...

A busca da igualdade de oportunidades a todos deve ser uma bandeira de todo crente. Os governos têm que ser agentes desse esforço. No entanto, ninguém confunda isso com socialismo ou igualdade de resultados. Os que se esforçam mais, os que têm maior capacidade, certamente conquistam direito a crescer mais e a possuir mais. E se viverem no temor de Deus, com o coração constrangido pela Cruz, verão nisso uma imposição de consciência para abençoar e repartir com quem menos tem.

Termino dizendo que, se alguém sonha com um “céu socialista”, onde todos sejam exatamente iguais e tenham na mesma proporção, precisa estudar mais a Bíblia ou então terá grandes surpresas... O que nos espera na eternidade é uma sociedade feliz e plena em Deus, mas não de gente que vive numa condição de igualdade, pois a promessa de Jesus é: E eis que venho sem demora, e o meu galardão está comigo para dar a cada um segundo a sua obra” (Ap 22:12). Ora, se o galardão é proporcional ao que cada um fez, ele contempla mérito, diferente da salvação. Ou seja, a salvação é igual para todos (igualdade de oportunidades), mas os seus resultados são distintos na vida de cada um, de acordo com o proveito que cada pessoa fez da oportunidade que teve.

 

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