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Entre o “já” e o “ainda não”

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"Sempre é dolorosa a perda de um ente querido, mas todos, de alguma forma, aceitam o fato de que os mais velhos partirão primeiro. Por isso, a morte dos pais, por mais sofrida que seja, está dentro da ordem natural das coisas."

“As coisas encobertas pertencem ao Senhor, ao nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre.” Deuteronômio 29:29

Nas duas últimas semanas vivi alguns momentos difíceis. Conduzi o funeral de uma criança de um ano e meio, filhinho de um casal de nossa Comunidade. Acredito que a maior dor que uma pessoa pode passar é a perda de um filho. Sempre é dolorosa a perda de um ente querido, mas todos, de alguma forma, aceitam o fato de que os mais velhos partirão primeiro. Por isso, a morte dos pais, por mais sofrida que seja, está dentro da ordem natural das coisas. Entretanto, a perda de um filho, além da dor de perder alguém tão querido, representa uma inversão da ordem natural.

Poucos dias depois, perdemos um amigo muito querido, que travou uma batalha intensa contra o câncer, sem nunca ter perdido a esperança e a fé. Esse amigo era um pastor, uma pessoa reta, cuja família é modelo para mim. Também tive a missão difícil, por causa da emoção, de presidir o culto fúnebre.

Nessas duas situações, chamou-me a atenção a atitude das famílias. Dois dias após o falecimento do menininho, encontrei os pais no culto. Fiquei surpreso ao vê-los, pois imaginava que durante alguns dias eles se recolheriam, para o tempo tão necessário de luto. A mãe me disse algo como: “Nunca abandonarei o meu Deus”!  A família do meu amigo, durante as despedidas no velório, declarou palavras de gratidão a Deus, e uma das filhas, naquele momento de dor, preferiu entoar o cântico de adoração que o seu pai mais gostava.

Isso tudo me fez refletir sobre algumas coisas. Nas duas situações, minha família e eu vínhamos orando diariamente pela cura desses queridos que agora estão com o Senhor. Já faz algum tempo eu decidi que oraria por pessoas enfermas até o final, mesmo em situações clinicamente irreversíveis – a não ser que o Senhor me diga que levará aquela pessoa. Eu não ouvi Deus dizendo algo sobre essas duas pessoas, mas ainda assim Ele os levou. Por quê? Será que é possível encontrar respostas? Por que uma criança foi levada? Também por que um pai de família exemplar, temente a Deus, teve que partir?

O verso que mencionei acima diz que há coisas que se podem saber, outras não. Há fatos que permanecerão encobertos até que cheguemos àquilo que costumo chamar de “o lado de lá da Eternidade”. Andar com Deus faz-nos confiar, ainda que não possamos compreender. É um dos grandes desafios de fé: continuar crendo em Sua sabedoria, soberania e amor em momentos de perda. A realidade é que vivemos um espaço de tempo em que o Reino de Deus tem um aspecto presente – o “já” - e uma dimensão futura – o “ainda não”. A vitória completa sobre a morte e a enfermidade pertencem à dimensão futura do Reino. Porém, como ele (o Reino) está se estabelecendo desde de a primeira vinda de Jesus, já vemos sinais de sua presença entre nós. Por essa razão oramos por cura, e vemos muitas vezes elas acontecerem, o mesmo ocorrendo com milagres de ressurreição (ainda que sejam bem menos frequentes).

Outra reflexão que me veio ao coração foi a convicção de que não há orações não respondidas. O que há são respostas diferentes das que esperávamos. Por que estou afirmando isso? Como referi antes, oramos pela cura desses dois amados intensamente nos últimos meses. O que aconteceu? Alguém poderia afirmar que não obtivemos resposta. Eu prefiro ver sob outra perspectiva. Ambos estão, agora, em um plano em que não há enfermidade, e nunca mais terão que enfrentar a morte. Em outras palavras, estão curados – não como imaginávamos ou desejávamos, mas superaram o sofrimento, e estão diante de Deus, eternamente. Para mim foi reconfortante pensar a respeito disso. No final da Primeira Carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo diz que a morte é o último inimigo a ser destruído. Sua destruição total ocorrerá na consumação dos séculos, mas para quem está em Cristo Jesus, a morte já pode ser vencida. Ela não é um ponto final; antes, é uma passagem na qual mergulhamos na Eternidade. Claro que para os que ficam existe a dor da separação, mas quando todos estivermos “lá”, esse tempo será visto como um lapso, um parêntese, do qual teremos saído e viveremos para sempre em uma realidade indescritível.

Finalmente, quando estou em funerais, sempre reflito sobre a brevidade da existência terrena. Há ocasiões em que vejo famliares lamentando palavras que não foram ditas – ou lamentando palavras que foram ditas, e não deveriam ter sido... Outras vezes, queixam-se de situações não resolvidas. Felizmente, nas duas situações que mencionei no início destas reflexões, não havia motivos para esse tipo de lamento. Mas, normalmente quando retorno para minha casa após oficiar um funeral, renovo minha decisão de viver melhor, perdoar mais, amar mais, e expressar esse amor. Chego, beijo minha mulher e minhas filhas, e agradeço pelo tempo que ainda temos.

Que no tempo que temos adiante de nós, que está compreendido exatamente entre o “já” e o “ainda não”, mantenhamos nossos pés sobre a terra, e o coração voltado para aquilo que é do alto. Ao viver assim, não negligenciaremos aqueles a quem amamos, mas também não perderemos de vista a realidade de que nossa pátria definitiva é a Jerusalém celestial.

 

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